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 Psicologia Ocupacional
15/01/2020

Substâncias psicoativas: como as empresas podem realizar a prevenção?

A criação de programas de prevenção é apenas uma das ações a serem tomadas para evitar que os trabalhadores abusem do uso de drogas lícitas e ilícitas


É cada vez maior o número de trabalhadores que utilizam substâncias psicoativas – lícitas ou ilícitas – dentro ou fora do ambiente de trabalho. De acordo com o último levantamento realizado pela Previdência Social, em 2014, o total de auxílios-doença relacionados à dependência química simultânea de múltiplas drogas chegou a 26 mil, um aumento de 256% em relação a 2006. O número de benefícios concedidos relativos ao consumo de cocaína e derivados também triplicou nesse período – foram contabilizados 8.638 casos e um gasto de R$ 9,1 milhões. A cifra total, incluindo álcool e fumo, chegou a R$ 162,5 milhões.

Mas engana-se quem pensa que o consumo de drogas é um problema contemporâneo. O estudo O uso e abuso de substâncias psicoativas por adolescentes: uma proposta de intervenção, produzido pela médica especialista em Atenção Básica em Saúde da Família Luana Oliveira Freitas, mostra que há relatos de uso em praticamente todas as culturas e povos, seja por motivos místicos ou recreacionais. Isso só passou a ser um problema social no século XX, quando o consumo de álcool, cocaína e derivados do ópio começou a ser combatido nos Estados Unidos.

“Nos dias atuais, o uso abusivo de substâncias psicoativas é visto como um problema de saúde pública mundial, dadas a magnitude e a diversidade dos aspectos envolvidos. Trata-se ainda de um problema social com impactos diretos na saúde do indivíduo, da família, da comunidade e da sociedade em geral”, diz a pesquisadora. Esses efeitos se tornaram tão nocivos que a 10ª revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-10) incluiu uma lista de substâncias psicoativas – álcool, opioides (morfina, heroína e codeína), canabinoides (maconha), sedativos ou hipnóticos (barbitúricos e benzodiazepínicos), cocaína, alucinógenos, tabaco, solventes voláteis e outros estimulantes (anfetaminas e substâncias relacionadas à cafeína) – como causadoras de problemas de saúde.

É um desafio que ultrapassa as fronteiras geográficas e culturais e preocupa países desenvolvidos e em desenvolvimento por todo o mundo. Percorre diferentes classes sociais e faixas etárias e resulta em uma série de prejuízos pessoais, sociais e econômicos para todos os atores envolvidos – inclusive as empresas. Por isso, elas têm um papel fundamental para evitar que seus colaboradores sofram com a dependência de drogas.

O que são substâncias psicoativas?

No meio científico, as drogas são avaliadas sob uma perspectiva biológica. A Organização Mundial de Saúde as define como “toda substância natural ou sintética que, introduzida no organismo vivo, pode modificar uma ou mais de suas funções”. Por isso, elas não podem ser caracterizadas como boas ou más. Um medicamento, por exemplo, promove efeitos benéficos, embora modifique as funções do organismo.

Do ponto de vista legal, porém, o termo é ligado apenas às substâncias psicoativas – ou seja, as que provocam alterações no sistema nervoso central, sejam mudanças no humor, no comportamento ou na cognição. De acordo com a Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas, o efeito dessas substâncias não é o mesmo para todas as pessoas, variando de acordo com as características do usuário, de qual droga foi consumida, da quantidade e das circunstâncias em que ela foi utilizada.

Classificação das substâncias psicoativas

Do ponto de vista legal, esse tipo de sustância pode ser dividido em dois grandes grupos: lícitas e ilícitas. As lícitas são aquelas permitidas por lei, podendo ou não ser submetidas a normas reguladoras. De modo geral, podem ser compradas de maneira livre em qualquer estabelecimento comercial do país, como é o caso do álcool, do tabaco, dos analgésicos e dos anorexígenos. Já as ilícitas são aquelas cuja produção e a comercialização são proibidas pela Justiça, como a maconha, a heroína, o crack e a cocaína.

Existe uma outra classificação que separa esse tipo de droga de acordo com a atuação no organismo:

  • Estimulantes: aumentam a atividade mental ou trazem uma sensação de bem-estar, ao estimularem a euforia e a melhora do humor, além de um aumento da energia, do estado de alerta, das atividades motoras e da atividade cardiovascular. Em alguns casos, são utilizadas para manter o corpo acordado por mais tempo ou para diminuir o apetite. Enquadram-se nessa categoria as anfetaminas, a nicotina, a cafeína, a cocaína e o crack.
  • Depressoras: atenuam ou inibem os mecanismos cerebrais de vigília, deixando o cérebro mais lento e possibilitando diversos graus de relaxamento, sedação, sonolência, anestesia e até mesmo coma. Também há uma tendência a reduzir a atividade motora, a reatividade à dor e a ansiedade. São exemplos o álcool, os ansiolíticos (tranquilizantes), os inalantes (cola) e os narcóticos (morfina e heroína).
  • Perturbadoras (ou alucinógenas): alteram o funcionamento cerebral, provocando vários efeitos psíquicos anormais – como delírios e alucinações. Isso significa que a pessoa que consome esse tipo de substância pode ter falsas sensações ou ter um falso juízo sobre a realidade. São os casos da maconha, do LSD, do ecstasy, de esteroides anabolizantes e de outras substâncias derivadas de origem vegetal ou fúngica (sálvia, ayahuasca, ibogaína, mescalina etc.).

Quando se torna dependência?

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o consumo de substâncias psicoativas pode ser classificado como uso, abuso ou dependência química.

Quando a pessoa consome socialmente ou apenas para experimentar, tem-se o uso. Ele traz pouca ou nenhuma consequência grave para o indivíduo, mas pode causar prejuízos imediatos, como acidentes de trabalho ou de trânsito e potencialização de comportamentos violentos. Além disso, pode ser o primeiro passo para uma dependência.

O abuso ocorre quando há um maior consumo da substância e com consequências mais sérias. Não diz respeito ao tempo de consumo, mas sim à quantidade – ou seja, o uso esporádico pode ser caracterizado como abuso. É o caso, por exemplo, de alguém que foi a uma festa, exagerou no consumo de álcool e foi parar em um hospital.

Já a dependência é caracterizada pelo alto consumo, com uso frequente e em maior período de tempo. Por trazer graves consequências para o indivíduo, necessita de um diagnóstico médico, baseado na CID-10 e no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). Os principais critérios são os seguintes:

  • Tolerância: o paciente precisa de doses cada vez maiores para atingir os efeitos buscados;
  • Senso de compulsão: há um forte desejo para consumo da droga e o paciente até quer reduzir ou controlar o consumo, mas não têm sucesso;
  • Abstinência: se o uso for interrompido, surgem sintomas como tremores, ansiedade, irritabilidade e insônia. Isso faz com que o paciente queira voltar a consumir a substância para evitar os efeitos;
  • Abandono de atividades: a pessoa deixa de lado outras ações que dão prazer e dedica a maior parte do tempo ao consumo da substância;
  • Persistência no uso: mesmo diante dos sintomas e danos ao organismo, o paciente ainda prefere manter o consumo.

Substâncias mais utilizadas

Não há um estudo que mostre as principais substâncias utilizadas pelos trabalhadores de modo geral, mas cada categoria costuma ter suas próprias necessidades. Em A relação entre o uso de drogas e o trabalho: uma revisão de literatura PSI, pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia fizeram um levantamento de estudos realizados sobre esse assunto e trouxeram alguns dados interessantes para entender esse cenário.

Acadêmicos, por exemplo, tendem a consumir mais álcool (88% dos entrevistados), cigarro (13%) e ansiolíticos (4%). Outra pesquisa mostrou que 12,4% dos caminhoneiros admitiram fazer uso de “rebite” como estimulante para se manterem acordados no volante, sendo que 45,1% bebiam pelo menos uma vez por semana. No caso de ambientes portuários, 94,7% dos entrevistados disseram já ter trabalhado com um colega alcoolizado e 77,27% afirmam ter trabalhado sob o efeito de maconha.

Um estudo feito com médicos em tratamento por dependência química mostra que o álcool foi a droga de maior prevalência (72,7%), seguido pela cocaína (31,8%), benzodiazepínicos (28,2%), opiáceos (26,7%) e maconha (25,2%). No caso de uma pesquisa com policiais civis e militares do Rio de Janeiro, o tabaco foi apontado como o mais consumido (23,3% e 19,1%, respectivamente), seguido pelo álcool (12% e 11%) e tranquilizantes (13,3% e 10,1%).

Os números mostram que as substâncias variam bastante de acordo com cada categoria profissional e isso está relacionado a pressões causadas pelas atividades realizadas e acobranças por parte das empresas. Cargas horárias estressantes, metas impossíveis de serem batidas, necessidade de se manter em vigília por muito tempo e a preocupação com os resultados das ações são apenas alguns dos fatores que levam os trabalhadores a recorrerem a substâncias psicoativas. E cabe às companhias criar modos de combater o seu uso.

Qual o papel das empresas

É preciso ter em mente que, mesmo que o uso ocorra fora do local de trabalho, os efeitos das drogas no organismo podem prejudicar o desempenho das atividades ocupacionais. Portanto, é responsabilidade da empresa cuidar da saúde mental dos trabalhadores e atuar na prevenção do uso de tais substâncias. Por isso, elas devem ficar atentas aos sinais para agir de modo preventivo.

Esses indicativos são, em sua maioria, subjetivos e devem ser confirmados pela companhia, o que aumenta a responsabilidade em evitar falsas acusações. Mudanças de comportamentos repentinas, alterações no relacionamento com os colegas e sinais corporais são alguns dos indicadores que devem ser observados.

Quando a empresa descobre um caso como esse, é preciso entender que ali há um problema de saúde, que pode ser acompanhado e tratado. Não é uma questão a ser tratada por meio de demissão, mas de auxílio, até que o trabalhador possa se recuperar. Para além desse acompanhamento individual, também é preciso implementar um Programa de Prevenção ao Uso de Substâncias Psicoativas, preferivelmente integrado ao Programa de Saúde Mental no Trabalho. Assim é possível verificar não só a causa da dependência, mas também expandir o a atuação para outras doenças e transtornos psiquiátricos, como depressão, estresse, síndrome do pânico, ansiedade, Síndrome de Burnout e transtorno bipolar.

Todas as ações preventivas devem ser pensadas a partir das particularidades da empresa. Isso envolve observar o espaço físico disponível, a maneira como o trabalho é organizado, os relacionamentos interpessoais, as queixas dos trabalhadores, os fatores econômicos e sociais envolvidos, a missão e os valores da empresa e o clima organizacional.

Assim é possível estruturar campanhas de conscientização mais assertivas, que sejam capazes de humanizar o ambiente de trabalho e mostrar que a empresa se preocupa com o trabalhador.

A solução para sua empresa

Se você precisa implantar um programa de prevenção na sua empresa e não sabe como começar, procure a Sercon. Temos uma equipe de médicos do trabalho e psicólogos preparados para lidar com situações como essa, que podem propor ações adaptadas à realidade da sua empresa e, de fato, ajudar na prevenção de possíveis casos e na recuperação dos pacientes. Entre em contato para que possamos conversar melhor sobre isso!

Imagem utilizada: Freepik | jcomp

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