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 Medicina do Trabalho
01/10/2019

Estudo epidemiológico: impactos para o trabalhador

Alterações na Norma Regulamentadora 1 indicam uma possível mudança em como os legisladores poderão encarar os riscos ocupacionais no futuro


Conhecer com exatidão quais doenças ocupacionais mais acometem os trabalhadores de uma determinada empresa ou região é essencial para o desenvolvimento de ações de prevenção cada vez mais assertivas. O estudo epidemiológico é a ferramenta mais utilizada para isso, pois realiza uma análise detalhada das causas reais dos problemas e apresenta quais os melhores mecanismos para preveni-las.

Esse estudo tem suas raízes na Epidemiologia, um ramo da Medicina preocupado em entender a fundo o funcionamento de doenças transmissíveis e não transmissíveis para melhorar as condições de saúde pública. Aplicada ao ambiente ocupacional, essa área de estudos contribui para entender os fatores aos quais os trabalhadores estão expostos e os efeitos sobre a saúde. O estudo deve ser feito de forma exclusiva para cada empresa, pois as características individuais daquela organização – como os modos de trabalho e os fatores regionais – geram efeitos diversos sobre a saúde do trabalhador.

Leia mais: A importância do estudo epidemiológico

Por que conhecer os fatores epidemiológicos?

O professor Victor Wünsch Filho, do departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), explica que as doenças ocupacionais se modificam com o tempo, tanto com relação à frequência quanto aos aspectos clínicos e epidemiológicos. No estudo Perfil Epidemiológico dos Trabalhadores, o pesquisador traça um panorama dessas mudanças e como isso vem impactando a saúde dos trabalhadores até os dias de hoje.

De acordo com o professor, a sociedade da informática aumentou o trabalho noturno e, com a diversidade de padrões de horários, houve uma interferência nos relógios biológicos dos trabalhadores. “Os ambientes modificam-se e tornam-se muitas vezes bastante hostis pela competitividade que promovem. O efeito da intensa quantidade de informação sobre a cognição da população trabalhadora não é em absoluto conhecida. Porém, tais demandas parecem ter grande potencial para gerar sofrimento psíquico”, afirma.

Isso pode ser visto, por exemplo, nos resultados do Boletim Quadrimestral sobre Benefícios por Incapacidade. Entre 2012 e 2016, transtornos mentais e comportamentais foram a terceira maior causa de afastamentos, com mais de 17 mil casos de auxílio-doença no país. A Organização Mundial de Saúde também está de olho nesse movimento, reconhecendo a Síndrome de Burnout como fenômeno ocupacional a partir de 2022.

Além disso, Victor aponta que outras doenças que atualmente são comuns aos trabalhadores precisam ser mais estudadas. Distúrbios osteomusculares – uma das principais causas de afastamento em Belo Horizonte –, alergias, exposições a múltiplos agentes químicos, cânceres e doenças cardiovasculares precisam ser avaliados para que se conheça melhor as relações sincrônicas entre eles e as atividades de trabalho realizadas, de forma a fundamentar melhor as propostas de intervenção.

“Estabelecer limites de submissão ao mercado e à especulação financeira, reorientando as trajetórias do capital para a inclusão dos indivíduos em atividades socialmente saudáveis, é uma tarefa necessária e que dependerá da organização das forças sociais”, avalia. Nesse contexto, Victor considera que a saúde dos trabalhadores será parte indissociável da conquista da qualidade de vida e de saúde para o conjunto da população.

Dificuldades no estudo epidemiológico

Na apresentação Vigilância epidemiológica das doenças ocupacionais: algumas ideias, o professor do departamento de Saúde Pública da Faculdade de Medicina de Botucatu/SP, Ricardo Cordeiro, avalia que as principais dificuldades nesse processo são o subdiagnóstico das doenças profissionais e o não reconhecimento da relação das más condições de trabalho com o agravamento dos sintomas. “É interessante notar que, em relação a países do primeiro mundo tais como a Finlândia, a Itália e os Estados Unidos, a incidência registrada de doenças ocupacionais no estado de São Paulo na década de 1980 e início dos anos 1990 é cerca de 10 vezes menor.”

Ele afirma que o subdiagnóstico impossibilita a tomada de medidas terapêuticas e impede o trabalhador de ter o reconhecimento jurídico de sua real condição. Mas o maior problema está no âmbito epidemiológico. “A doença profissional é uma ocorrência intrinsecamente epidêmica. Raramente ocorre de forma isolada. É antropogênica e evitável”, afirma. Quando os casos não são relatados, a mensuração do impacto daquela doença ocupacional fica prejudicada e dificulta a adoção de medidas de controle endereçadas aos trabalhadores expostos.

O pesquisador acredita que a reversão do subdiagnóstico das doenças ocupacionais ou que a melhoria da situação de saúde dos trabalhadores não é tarefa exclusiva da Epidemiologia, mas que ela tem uma contribuição a dar. Para isso, ele levanta três pontos de atenção:

  1. Comunicação de Acidente do Trabalho (CAT): existem experiências bem-sucedidas de uso da CAT como fonte de informações para o estudo epidemiológico. Isso possibilita conhecer melhor o perfil dos acidentes e da mortalidade ocupacional, de acordo com as regiões do país. Mas Victor aponta que a própria CAT é um limitador, pois faltam instrumentos digitais para gerenciamento das informações, não há participação efetiva dos profissionais de saúde na sua elaboração e a notificação das doenças profissionais não é compulsória.
  2. Critérios de diagnóstico das doenças ocupacionais: atualmente, o diagnóstico tem como base critérios exclusivamente clínicos, mas o pesquisador sugere uma abordagem mais epidemiológica. “Tal abordagem diagnostica não é novidade no campo das doenças crônicas não ocupacionais, tratando-se de uma questão política a sua utilização como prática corrente na saúde ocupacional.”
  3. Produção científica na área: Victor considera que muitos dos conhecimentos existentes em Segurança e Saúde do Trabalho precisam ser revistos e equacionados com novas pesquisas. Seria o caso, por exemplo, de alguns limites de tolerância, que não são revistos há décadas, mesmo com o avanço da tecnologia.

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